Desemprego em dose dupla
Quem vê hoje a pequena freguesia de São Tomé de Negrelos, no concelho de Santo Tirso, e quem a conheceu há 10 anos atrás, pode pensar que não se trata da mesma localidade. Com uma população a trabalhar predominantemente no sector têxtil, a acolhedora aldeia ficava completamente deserta durante o dia e só à noite via regressar grande parte dos seus moradores. Logo pela manhã, homens e mulheres saíam dos seus lares e rumavam aos locais de trabalho, a maior parte deles grandes fábricas têxteis espalhadas pelas margens do Rio Vizela, um dos afluentes do Rio Ave. Só os mais velhos permaneciam em casa, cuidando dos netos e das pequenas hortas tão características da zona do Vale do Ave.
Hoje tudo mudou. São três horas da tarde de uma quarta-feira, mas bem que poderia tratar-se de um domingo. Entre a semana e o fim-de-semana já não se notam diferenças. Em todas as casas há pessoas. As portas e as janelas estão abertas. Os carros estão à porta. As mulheres fazem as lides domésticas entre um pé de conversa com uma e outra vizinha. A meia dúzia de cafés da aldeia estão cheios de homens que lá ocupam os seus dias, entre um gole de vinho e uma partida de sueca.
Num destes cafés estava o Sr. Gaspar, um homem de 60 anos, semblante carregado e pele queimada do muito sol que apanhou nos trabalhos do campo. Em casa esperava-o a D. Maria. Sentada num banco da varanda, bordava um dos muitos panos de linho que faz. “Bordo, faço croché e ponto aberto”, diz alegremente. O seu sorriso faz prender o olhar nas dezenas de pequenas rugas da sua cara. Com quase 60 anos, “a vida nunca deu para comprar cremes para a cara”, lamenta.
Casados há 37 anos, a D. Maria e o Sr. Gaspar viveram sempre numa luta permanente para criar os quatro filhos e construir uma casa própria. Nunca foram de cruzar os braços. Sempre se preocuparam com o futuro. Mas o futuro reservava-lhes uma triste surpresa.
Emigração como solução no ínicio da década de 70
No início da conversa, recua-se até 1972, altura em que, com dois filhos pequenos, partiram para a Alemanha à procura de uma vida melhor. “O meu segundo filho tinha um mês quando fomos para a Alemanha e eu chorava todos os dias, só pensava em Portugal, na minha família”, relembra a matriarca da família, enquanto o marido lançava um sorriso maroto. “Se não fosse a vontade dela em voltar para Portugal, ainda hoje lá estava”, comenta. O ano de 1982 marcou o regresso a terras lusas. “Em poucos dias mudámo-nos para a nossa casa nova e encontrámos emprego”, conta a D. Maria, sem nunca parar de bordar.
Após duas semanas de estadia em Portugal, foram os dois trabalhar na fiação da Fábrica de Fiação e Tecidos do Rio Vizela, que no início do século XX chegou a ser considerada a segunda maior fábrica têxtil da Europa. Ele trabalhava no turno da noite (das 22h00 às 6h00), enquanto ela trabalhava das 6h00 às 14h00. “O meu marido quando chegava a casa ia dormir e depois, às duas horas, quando chegava a casa eu acordava-o para ele ir trabalhar para o campo”. Foi assim durante quase 20 anos. A mesma rotina dia após dia.
O encerramento
Os primeiros sinais de que algo não estava bem com a grandiosa fábrica surgiram a meio da década de 90. “Em 1995 a empresa fez 150 anos e deram-nos uma medalha a cada um e tudo”, relembra o Sr. Gaspar, que imediatamente se levanta. Poucos minutos depois volta, mostrando saudosamente a sua medalha: “Ainda me lembro que, no dia da festa do aniversário dos 150 anos, disse à minha mulher que a fábrica não chegava aos 200 anos”. A sina estava traçada. Dos 50 anos que o Sr. Gaspar previra, a fábrica
Em 2002, a Fábrica de Fiação e Tecidos do Rio Vizela declarava falência. Mais de mil trabalhadores ficavam no desemprego. “Entre esses mil estavam muitos casais, um deles nós”, recorda o Sr. Gaspar. Após uma vida com mais de 30 anos de trabalho, viram-se ambos pela primeira vez desempregados. Desempregados e com mais de 50 anos.
Seguiram-se quatro anos de subsídio de desemprego. “Eram menos de 40 contos ao fim do mês”, desabafa D. Maria, que logo começa a falar nas dificuldades económicas que passaram. “O que nos valeu foi os campos que cultivamos e que nos dão batatas, hortaliças, cebolas e abóboras”, diz ela, enquanto olha orgulhosamente para um dos quintais, mesmo à sua frente.
A entrada na reforma
Dos quatro filhos do casal, nesta altura, dois estavam já casados, um vivia com os pais mas já trabalhava e o mais novo frequentava o ensino secundário. “O meu filho viu que não tínhamos possibilidade de o pôr na universidade e no fim do 12ºano foi trabalhar”, lamenta a senhora.
Em 2006, o subsídio de desemprego termina. Como ambos tinham já mais de 55 anos, decidem pedir a pré-reforma. Foi uma decisão muito ponderada, já que, como disse a Dr. Maria, se tivessem “trabalhado até aos 65 anos” tinham ficado “com uma reforma muito maior.” Os oito anos de antecipação da reforma fizeram com que ela ficasse a ganhar menos 100 euros do que o seu antigo ordenado. No caso do Sr. Gaspar, a diminuição chegou aos 150 euros. A indignação do casal é bem visível: “Só fomos para a reforma porque ninguém nos dava emprego com aquela idade e ainda nos penalizam por isso”. O valor das suas reformas juntas não perfaz os 750 euros. Só na farmácia deixam todos os meses mais de 100 euros. “Temos diabetes, colesterol, hipertensão e eu tenho muitos problemas de ossos”, lamenta a D. Maria. “O que nos vale é que não temos uma renda de casa para pagar, senão, não sei o que seria de nós”, acrescenta ela. O marido dá-lhe a resposta: “Tínhamos que comer sopa todos os dias”.


